Procurando Caminho

O que fazer quando uma comunidade tem muitas crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e risco social, boa parte envolvida com o tráfico de drogas? E quando 23 deles estão listados para morrer? O Centro Cultural Escrava Anastácia respondeu a esse desafio com um projeto que foi reconhecido como a melhor iniciativa social do Estado de Santa Catarina no ano de 2013, ganhando o Prêmio ANU, promovido pela Central Única das Favelas (Cufa). O projeto também foi apresentado em uma palestra no Congresso Internacional de Sportmeet, realizado em Pisa, e na Conferência sobre Esporte Educação, na Universidade de Florença, ambas na Itália, em abril de 2014

Marcados para uma nova
história!

Em 2007, o Centro Cultural Escrava Anastácia foi chamado por pessoas da comunidade da região do Monte Cristo, uma das mais violentas da Grande Florianópolis, para tentar salvar adolescentes ameaçados de morte. Graças a um programa inovador, denominado Procurando Caminho, foi possível salvar a maioria e reintegrá-los a um projeto de vida que inclui estudo e aprendizado profissional. Os adolescentes, à época, consideravam a escola, no Morro do Mocotó, no Centro de Florianópolis, o lugar mais seguro para demonstrarem a sua força. Circulavam pelo pátio armados, apavorando professores, alunos e a direção da escola.

Dos 23 marcados para morrer, três foram assassinados logo nos primeiros meses de atividade do projeto. Dois continuaram envolvidos com a criminalidade e cumpriram medidas socioeducativas de restrição de liberdade. E os 18 restantes voltaram a estudar e buscaram por conta própria outros cursos de qualificação profissional, além de tornarem-se articuladores em suas comunidades, ajudando outro(a) s adolescentes a participarem de atividades de esporte de aventura para, a partir daí, encontrarem outras alternativas de vida – outros caminhos.  ousadia de dar preferência às (aos) adolescentes de maior vulnerabilidade social está na própria origem do projeto. Nele, o jovem é protagonista, participa do processo, não é um ator passivo. O projeto quebrou o estigma da polícia, da comunidade, da sociedade e até o dos próprios jovens, devido ao prévio comprometimento com o narcotráfico.  Participam do projeto jovens e adolescentes de 14 a 29 anos, em situação de vulnerabilidade social, econômica, moradores das comunidades da grande Florianópolis, sem discriminação de gênero ou etnia. A prioridade é para as famílias de baixa renda (abaixo de dois salários mínimos). Também são priorizados aquele(a)s que cumprem medida socioeducativa, os que se encontram comprometidos com o tráfico diretamente ou por histórico familiar, e aqueles que apresentam baixo desempenho escolar.

Adrenalina, um dos segredos

Adolescentes já vivem numa enorme adrenalina, maior ainda quando estão envolvidos em situação de risco. O que fazer para atrair e manter jovens com esse perfil numa atividade educativa? A resposta foi a de proporcionar, inicialmente, contato com esportes que envolvem grandes doses de emoção e adrenalina, como surfe, rafting, canoísmo, rapel e arvorismo, ou menos convencionais e em permanente contato com a natureza, como stand-up paddle, trilhas e slackline. As atividades são desenvolvidas com o apoio de escolas de surfe e empresas que atuam com esses esportes. Além do esporte aventura, são realizadas atividades esportivas comunitárias, como futebol, vôlei, basquete, jogos, danças ou brincadeiras, reforçando a identidade cultural.

Esporte, aventura, educação e formação para uma vida digna.​

Do foco inicial para pouco mais de duas dezenas de adolescentes, a ação ampliou-se e hoje atende cerca de 200 jovens/ano. Os adolescentes são atraídos pela adrenalina e pela curiosidade da prática de esportes mais radicais, de aventura. Com isso, mudam hábitos e comportamentos. Por exemplo, passam a dormir mais cedo e se alimentar melhor, para dar conta da prática do esporte no dia seguinte. Entre 2007 e 2013, um total de 1.407 adolescentes e jovens em situação de risco social foram atendidos e constatou-se a redução da mortalidade.

O retorno à escola foi de 80%, com posterior ingresso no mundo do trabalho Com a abertura de novas perspectivas, voltam a se interessar por concluir os estudos, fazer seus documentos, se preparar para outras possibilidades de profissionalização. A própria escola, que antes tinha medo, ao perceber a mudança de atitudes, passa a contar com a participação desses jovens na mediação de conflitos, frequentes entre o corpo docente e estudantes. Os eixos do projeto, em torno dos quais se trabalha, são a prática do esporte educacional, o fortalecimento de vínculos na interação com a família, a escola e a comunidade, e a preparação e capacitação para inserção no mundo do trabalho. A carga horária do projeto inicia com maior intensidade nas atividades esportivas e gradativamente se desloca para a preparação do(a)s atendido(a)s à inserção no mundo do trabalho, por meio de oficinas formativas.

Elas geram oportunidades de relacionamento em novos espaços e com novas práticas, abrindo possibilidades e motivações que a escola não traz. Isso gera mudanças de atitudes e comportamentos, com mais respeito e autoestima, ampliando a percepção do leque profissional a que cada adolescente pode ter acesso, saindo da mera repetição da profissionalização em serviços gerais ou como auxiliares não qualificados.

Procurando caminho

O melhor de todos os caminhos!

O fortalecimento da convivência familiar e comunitária ocorrer por meio de ações protagonizadas por adolescentes do projeto com a participação da comunidade, em datas comemorativas, atividades de lazer, eventos artísticos e culturais, que complementam as atividades cotidianas. Com esse trabalho, o CCEA formou uma equipe multidisciplinar, que além de atuar nos projetos da entidade, compartilha sua metodologia com instituições públicas e privadas, de abrangência estadual e nacional, por meio de atividades formadoras. Assim como o CCEA procura trabalhar através de redes, no projeto Procurando Caminho busca-se o trabalho e articulação com as políticas públicas, por meio de redes integradas num mesmo objetivo. Para que um adolescente supere a situação de vulnerabilidade social vivenciada é necessário interagir com as políticas públicas para a efetivação dos direitos e o protagonismo de adolescentes, famílias e comunidades.