História

A Comunidade do Monte Serrat é uma das integrantes do Maciço do Morro da Cruz, região ao mesmo tempo central e periférica da capital do Estado de Santa Catarina. De origem quilombola, a partir da década de 1980, viu crescer o empobrecimento e a violência, aumentada pela expansão do tráfico nos Morros.

Em meados dos anos 1990, após a ocorrência de uma chacina envolvendo oito jovens, cinco deles vindo a óbito, um grupo de mães e avós – mulheres negras em sua maioria – no intuito de encontrar alternativas para que seus filhos e filhas, netos e netas, não ficassem entregues aos apelos da criminalidade, especialmente ao tráfico e à prostituição, iniciaram um trabalho de “cuidado e atenção” aos adolescentes e jovens em horários alternativos à escola. Primeiramente, trataram de ofertar alimento, reforço escolar, aula de artesanato, teatro e uma boa companhia. Em seguida, começaram a procurar parcerias para buscar, “na cidade”, vagas de trabalho para os jovens do Morro. Assim começou o trabalho com as pessoas que a sociedade coloca mais à margem para, com elas, construir possibilidades de inserção social e garantia de direitos.

Somente em 1998, é registrada a primeira denominação social da instituição no CNPJ como CENTRO CULTURAL ESCRAVA ANASTÁCIA DA NOSSA SENHORA DO MONTE SERRAT, nome escolhido para juntar as devoções populares africanas e católicas, muito presentes na comunidade, onde 90% dos moradores são afrodescendentes e onde instalou-se grande articulador católico, o Padre Vilson Groh, ainda residindo e atuando no local. Independente do nome, a Instituição não está ligada a nenhuma igreja ou religião. Com o apoio de um grupo de professores, militantes de movimentos sociais e tendo como protagonistas os líderes comunitários Darcy Vitória de Brito – a Dona Darcy – e João Ferreira de Souza – o Seu Teco, bem como o Padre Vilson, iniciou-se um trabalho de transformação social e o esforço conjunto trouxe resultados.

Padre Vilson

Seu Teco (in memorian) e Dona Darcy

Seu Teco (in memorian)

Nos anos que seguiram a sua formalização, o CCEA passou a executar projetos em parcerias com governos, no contexto das mudanças no porte dos investimentos em políticas sociais oficiais, as quais necessitavam de entidades com pilares sólidos para a sua aplicabilidade.

Até 2004, o Centro Cultural Escrava Anastácia atuava apenas no Monte Serrat, com ações na área da educação, esporte e lazer, além de apoiar a inserção dos jovens no mundo do trabalho.

Em 2005, o CCEA foi escolhido numa audiência pública do Ministério do Trabalho e Emprego em Santa Catarina, para ser entidade gestora do CONSÓRCIO SOCIAL DA JUVENTUDE NA GRANDE FLORIANÓPOLIS (AROEIRA). A fim de abrigar jovens que participavam do Consórcio Social e que eram ameaçados de morte, criou-se a CASA DE SEMILIBERDADE FRUTOS DO AROEIRA em parceria com a Secretaria Estadual de Segurança Pública e o Departamento de Ações Socioeducativas da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania. O projeto acolheu adolescentes e jovens que cumpriam medidas socioeducativa de semiliberdade, contribuindo para o retorno ou manutenção destes jovens na escola, estimulando a convivência social e a inserção laboral.

Durante três anos, o Aroeira articulou uma rede de organizações sociais que chegaram a qualificar 4.500 jovens. A partir deste movimento, o CCEA passou a ser entidade formadora do programa JOVEM APRENDIZ, autorizada pelo Ministério do Trabalho, ministrando cursos na área administrativa, com serviço reconhecido pelas empresas contratantes até os dias atuais. Para apoiar os jovens que preferiam se aventurar em seu próprio negócio, foi desenvolvido o projeto INCUBADORA POPULAR DE EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS – IPES – ampliando, em 2013, para apoiar empreendimentos de mulheres das comunidades.

Em 2007, o CCEA foi chamado na comunidade Chico Mendes, na Capital, onde havia ameaças de morte contra um grupo de 25 adolescentes. Para enfrentar o problema, criou-se o projeto PROCURANDO CAMINHO, que se expandiu para outras comunidades, apoiando adolescentes e jovens envolvidos com a criminalidade e o narcotráfico, para que encontrassem outras oportunidades em suas vidas.

Em 2008, o CCEA participou de mais uma audiência pública, organizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e passou a assumir o PROGRAMA DE PROTEÇÃO A VÍTIMAS E TESTEMUNHAS AMEAÇADAS – PROVITA – e o CENTRO DE REFERÊNCIA EM DIREITOS HUMANOS – CRDH, prestando serviços de apoio, atenção integral e proteção a pessoas vítimas e testemunhas ameaçadas. O CRDH funcionou nas cidades de Lages e Joinville.

Em 2009, o Juizado da Infância e Adolescência de Florianópolis solicitou o apoio do CCEA para assumir um abrigo institucional para crianças e adolescentes, que foi inserido na comunidade do Monte Serrat, culminando com a fundação da CASA DE ACOLHIMENTO DARCY VITÓRIA DE BRITO em 2010.

Ainda em 2010, o CCEA participou da articulação e fundação do INSTITUTO VILSON GROH – IVG, uma entidade de fomento, apoio e assessoria a vários movimentos que já atuavam em rede.

Nesta rede, as instituições acolhiam (e ainda acolhem) crianças e adolescentes até os 15 anos em programas socioeducativos. Pensando na continuidade dos serviços de convivência e fortalecimento de vínculos para jovens entre 15 e 17 anos, o CCEA criou o projeto RITO DE PASSAGEM, em 2013, que passou a funcionar como um dos eixos do Procurando Caminho, na sua segunda edição em parceria com a Secretaria Estadual de Assistência Social. Além disso, o Rito de Passagem tornou-se a porta de entrada para o Jovem Aprendiz. Já na terceira edição do Procurando Caminho, estendeu-se a idade dos atendidos para 14 a 24 anos.

Entre 2012 e 2017, o CCEA administrou a CASA DE ACOLHIMENTO À POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA, em ambiente cedido pela comunidade do Monte Serrat e em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social. Alguns atendidos foram apoiados em outro projeto que foi a REPÚBLICA PARA ADULTOS EM PROCESSO DE SAÍDA DAS RUAS. A partir destes dois serviços, organizou-se, com o apoio do Padre Vilson Groh, um grande grupo de voluntários que, desde 2014, atua na oferta de alimentação para a população em situação de rua, que se autodenominou MORRUA e conta com a disponibilização do espaço físico da cozinha da sede do CCEA para realizar seu trabalho.

O PROGRAMA FORTALEZAS, iniciado em 2013, através de iniciativa da Fundação Jacobs (Suíça), em convênio com a Fundação SES (Argentina), apoiou o fortalecimento institucional para a administração dos vários projetos, visando implementar um movimento de qualificação e acompanhamento da inserção laboral dos jovens.

Neste mesmo ano, 2013, o Procurando Caminho foi premiado pela CUFA – Central Única das Favelas – como melhor projeto social de Santa Catarina.

No inverno de 2016, percebendo as necessidades de agasalho para os jovens que frequentavam a sede, um grupo de voluntárias deu início ao projeto ARMÁRIO SOLIDÁRIO – ESTILO ANASTÁCIA, passando a organizar todas as doações de vestuário recebidas voluntariamente. Além disso, passaram a auxiliar os jovens com orientação para a maneira adequada de se vestirem para o ambiente de trabalho.

Em 2017, o CCEA apresentou ao Governo do Estado uma proposta para a terceira edição do Procurando Caminho, para oferecer oportunidades efetivas para 470 jovens em risco social e moradores de comunidades prioritárias poderem desenvolver suas competências nas áreas de formação profissional, estudo, esporte e lazer, arte e cultura, de modo a reduzir o ingresso destes jovens na criminalidade. Foi assinado um Termo de Fomento com a Secretaria Estadual da Assistência Social, o qual encerrou-se em abril de 2020, atendendo mais de 400 jovens em dois eixos de atuação: nas comunidades, com grupos para a prática de esportes e, na sede, para a execução de atividades em contraturno, quatro vezes por semana. Nesse ano, foi sancionada a Lei Estadual nº 17.364, de 20 de Dezembro de 2017, autorizando a concessão de uso do imóvel onde está instalada a sede do CCEA pelo prazo de 25 anos, o que dá segurança à instituição para o planejamento de projetos e programas de longo prazo.

Para fornecer refeições de boa qualidade e quantidade aos jovens atendidos no Rito de Passagem e no Jovem Aprendiz, iniciou-se um movimento de voluntárias e voluntários que organizaram e trabalharam durante todo o ano de 2017, dando início à COZINHA ANASTÁCIA. Ao longo do período, passaram pelo projeto 29 voluntários e realizou-se a revitalização das instalações e equipamentos com doações do Grupo Morrua e de outras pessoas envolvidas com a causa.
 

Portanto, há mais de 22 anos, o CCEA possui experiência na oferta de projetos voltados ao público jovem, razão primeira de sua existência, orientando-os para a percepção de suas potencialidades e de novos caminhos para o futuro. Hoje, está presente nas comunidades empobrecidas que apresentam maiores demandas sociais da população juvenil, atuando em rede e colaborando no fortalecimento do capital social que nasce na complementaridade dos trabalhos da entidade, dos atores comunitários e das parcerias públicas e privadas.

Esta é a história cronológica do CCEA. Porém, no decorrer de todos esses anos, há muitas histórias de vida, a maioria apenas contadas e recontadas, que falam de superação do medo… do recebimento de um cuidado fora dos padrões do projeto…de proteção a violências… de oportunidades alcançadas para quem não se encaixava em projetos… de ações de enfrentamento à fome e ao frio… que aconteceram além dos relatórios escritos, mas que estão na memória dos jovens e suas famílias, dos colaboradores, das diretorias, dos voluntários, dos educadores e, por consequência, na memória de toda a sociedade.